ricardo Caulfield

Terça-feira, Março 06, 2012

Um divã libertário

Preconceito é mesmo um atraso de vida. Se soubesse que o filme “O divã”, baseado no livro de Martha Medeiros, era tão bom, teria visto no cinema e não no DVD. Eu não li o livro, mas, conferindo o elenco, pensei se tratar de mais uma daquelas produções com cara de mini-série de TV que passa depois da novela. Contudo, o filme consegue ser específico, singular na sua proposta. Cinema é criar um clima, transportar o espectador para um dimensão diferente, onde ele permaneça imerso durante os minutos da projeção. É uma questão de timing. “O divã” consegue isso plenamente. E mesmo quem ache difícil que atores famosos consigam exercer um papel sem que o público os dissocie de suas personas televisivas, vai ter que dar o braço a torcer: Lilian Cabral, José Mayer e todos os outros parecem gente como a gente. Ou os nossos vizinhos. E uma grande qualidade: a trama reflete a mulher e seu momento na sociedade, suas questões. Não é daquelas produções baseadas em histórias que foram escritas há 50 anos(e, às vezes, recicladas). É um filme de amor que não fala sobre amor, mas sobre o desejo e aspirações. Valorizado pelas atuações e pela direção de José Alvarenga. Assistir a esta película pode ser um desafogo para quem está cansado de Hollywood, paraíso do romantismo artificial onde todos protagonistas vivem, acordam e comem na mesma batida do “Eu te amo”. Vi “Amor a toda prova” com Steve Carell, e me perguntei de que são feitos aqueles personagens. A vida não é assim. Acho que é mais parecida com “O divã”. É um filme libertador para a mulher. Na realidade, acho que para qualquer ser humano. É triste e engraçado, ora alegre e melancólico, e a gente fica na dúvida se terminou bem ou não. Podemos nos perguntar se a protagonista do filme, este novo perfil de mulher, é mais feliz do que as que permaneceram acorrentadas a seus casamentos, mesmo quando a paixão esvaneceu. No filme, pelo menos, esta mulher antiga morreu.

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Apático, o Flu vence o Arsenal

Flu estreou na Libertadores neste ano com uma vitória sobre o Arsenal da Argentina, mas sem mostrar absolutamente nada que justificasse o investimento pesado da Unimed. Felizmente a vitória marca um bom começo, porque terrível é jogar bem e ver os hermanos empatarem no final, com uma dessas bolas bobas, ocasionadas por alguma distração da defesa tricolor. Contudo, acredito que o plantel do time é mesmo um dos melhores do Brasil e que pode dar frutos. Por enquanto, os pontos fracos tem sido a defesa e...o técnico, que veio tão badalado com um mundial e uma libertadores no currículo. No ano passado, o time fez um ótimo segundo turno, mas desperdiçou todas as chances que teve de passar, nem que fossem algumas horas, na liderança. Perdeu quando não podia e se distanciou do líder. Ora, a defesa do time de 2011 não é tão diferente do campeão brasileiro de 2010. Hoje, o grande problema do time continua a ser a ausência de cabeças de área que dêem uma efetiva proteção à zaga. É difícil o Edinho perder uma dividida, só que ele participa de poucas, porque não chega a tempo. E o Diguinho é um pouco mais leve e tem ambições futebolísticas que vão além de destruir as jogadas do adversário. Moral da história: fica faltando aquele “cão de guarda” implacável. É lamentável, por exemplo, ver quantas vezes o time faz um gol e leva um em seguida. Às vezes não dá nem tempo de comemorar. O discurso do técnico incomoda quando diz que não vai improvisar um jogador em uma posição se houver um especialista. Soa como se fizesse uma média com os jogadores, uma espécie de corporativismo. Quem nem sempre é o melhor para o atleta: o lateral Jefferson, no ano passado, estreou pessimamente em um jogo vital, nunca mais foi escalado e foi dispensado. Não era melhor o jogador ir entrando aos poucos, e, numa emergência, colocar o Marquinho improvisado, um atleta que já tinha ritmo de jogo e de campeonato? E pior ainda é que o Fluminense foi completamente dominado e perdeu, em casa, para o América Mineiro, sendo o Jefferson um dos piores. Agora grande parte da torcida sabe que o Edinho jogou melhor de zagueiro, superando até mesmo alguns ditos “da posição”. Com a saida do Leandro Euzébio por expulsão, esta é a hora de dar uma chance à sorte, colocando o Edinho ali, e o Valência no meio, ao lado de Diguinho. É importante também não perder de vista que o Fluminense perdeu muito de sua consistência defensiva com as saídas de Mariano e Marquinho, então é chegada a hora de escalar o melhor que está aí, afinal, os caras ganham ótimos salários e precisam por a equipe para frente. Outro problema: a demora de Abel para mexer na equipe é absurda. Como pode um time levar um sufoco durante uma hora antes que se faça uma troca? Usando aquela máxima que é mais fácil destruir do que criar, não é possível que não exista nas Laranjeiras jogadores que saibam marcar e chegar junto do adversário. Sei que um Deco ou um Conca não dão em árvores, mas encontrar bons “destruidores” para escalar na cabeça de área não deveria ser um desafio tão impactante. De preferência, que não errem todos os passes. Se desde o ano passado, a defesa era uma peneira, é hora de mudar. Sugestão para este jogo contra o Boca, levando em consideração as expulsões de Wagner e Leandro Euzébio: Diego, Bruno, Anderson e Edinho, Carlinhos. Valencia e Jean, Diguinho e Deco, Thiago Neves e Fred. É preciso aparecer em campo. O time deixou-se ser dominado, não se enganem pelas duas expulsões, não foram frutos de jogar com raça, mas de desequilíbrio emocional de quem não consegue se impor jogando em casa.

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

Medianeras em cartaz

O sujo e o limpo, o moderno e o arcaico. A cidade com suas contradições. O longa Medianeras inicia com uma contundente e, por vezes amarga, descrição dos paradoxos que estão à mostra nas ruas de Buenos Aires. O cinza é o tom cruel da arquitetura que se modifica desordenadamente. Para quem não sabe, medianeras são as paredes laterais dos edifícios, espaços mal tratados e sem janelas, proibidas por lei para preservar a privacidade dos vizinhos.O filme é sobre as cidades. E principalmente sobre as pessoas.
O subtítulo em português,”Buenos Aires na era do amor virtual”, não é exatamente justo. Na história, que apresenta dois personagens principais como eixo, estão presentes diversas tentativas de relacionamento. O computador para Martin, que se descreve como um fóbico, ajuda no trabalho e também tornou-se uma ferramenta na busca por uma companhia

. Já Mariana não é uma habitué nos jogos da conquista pelo ciberespaço. Desses jovens emergem opiniões sobre o mundo, a internet, os nossos dias. São abstrações dos personagens sobre aspectos que afligem a todos. Mas não soa forçado.
As ações não têm aquele ritmo vertiginoso que muitos procuram, mas esta não é a proposta. Pouco a pouco vamos sendo fisgados pela narrativa cadenciada e percebendo que a história trata muito de isolamento, de desencontros. Desencontros reais e virtuais, acho que seria um subtítulo mais justo. E somos introduzidos às tentativas amorosas de Martin que correspondem a tipos bem pitorescos (em alguns momentos, engraçados), como a mulher não para de falar em francês, a babá de cachorros, etc. Mariana, ainda combalida por um difícil fim de casamento, também está à procura.
A vizinha pianista é um tormento para Mariana, mas não para o publico. Das teclas saem a música que embala várias cenas. Nada de baladas açucaradas para fisgar a emoção dos mais ingênuos e menos exigentes. A trilha sonora traz uns clássicos e até um pouco de rock alternativo. É elegante, passa longe do óbvio. Em determinado momento, Woody Allen aparece na televisão de um dos personagens. O diretor Gustavo Taretto gosta mesmo de cinema.
Martin e Mariana moram bem perto um do outro. Contudo, não vai ser o computador que vai lhes facilitar a vida. A tecnologia pode falhar, é preciso mover-se, trocar palavras e olhares. Como fazer isso se ficarmos dentro de casa em redes sociais ou nos chats?
Será que isto não vai acaba se tornando uma CHATeação? – não pude resistir ao trocadilho.
A cidade é imensa, não é possível que, dentre milhões de habitantes, não exista ninguém que atenda às nossas expectativas amorosas. O computador pode ser um começo, mas o passo (real) precisa ser dado. Em Medianeras, existe persistência na procura do amor, porque, mesmo com toda improbabilidades, é um filme romântico. É sempre possível abrir uma janela.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

A tentativa de Almodóvar

Este “A pele que habito” me levou ao cinema, com certa expectativa, em parte porque Almodóvar é um dos maiores cineastas atuais, mas também porque ouvi opiniões distintas a respeito. Dias antes de conferir a película, em um grupo de amigos, percebi o juízo de dois colegas sobre a obra. Para um, “A pele´ mostrava sinais de esgotamento criativo do diretor” e, para outro, “o espanhol conseguia surpreender novamente”.



Sem duvida, Almodóvar é hoje algo raro: um realizador que alcança o grande público sem abrir mão de sua personalidade. Seu cinema nunca é genérico, pelo contrário, caminhou no sentido de ficar cada vez mais característico. E isto não se refere só a trama, e, sim, às cores, à trilha sonora, aos closes, ao apreço por uma latinidade caliente e dramática. Percebe-se que cada fragmento de uma obra de Almodóvar é uma tentativa de levar à tela uma rede de sons e cores, de uma singular beleza artesanal. Não basta contar uma história... inclusive acredito que muitas vezes as cenas, isoladamente, sejam mais empolgantes do que o conjunto...Não obstante, um filme como “Fale com ela” consegue equilibrar genialmente um roteiro ousado com os dotes de artesão do diretor. Infelizmente não acho que este seja o resultado em “A pele que habito”.
O último item da filmografia Almodovariana cumpre a missão estética, e portanto ninguém vai esquecê-lo em curto espaço de tempo, pois evidentemente não é tão perecível como o fruto de uma franquia de ação que nos oferta um cacho de lugares-comum. Contudo, os amigos que citei no primeiro parágrafo estavam certos, embora as ideias sejam aparentemente opostas. “A pele que habito” surpreende e dá mostras de esgotamento.
O diretor joga em um caldeirão vários ingredientes dramáticos como briga entre irmãos, suicídio, incesto, a obsessão pelo passado, além de possíveis referências ao mago Hitchcock. O excesso já se tornou sua marca registrada, como se ele quisesse sempre incluir em sua trama todos tabus possíveis, e este exagero denota um certo humor, revelando o mundo de Almodóvar como um caótico planeta à parte. O problema agora é que os recursos narrativos utilizados não causam a reação esperada justamente pela recorrência. Ao remeter o expectador aos seus filmes anteriores, o resultado é um clima de deja vu. Um exemplo é a fixação de Almodovar pelos laços de parentesco, no estilo folhetim. Revelar neste filme que dois inimigos são irmãos não acrescentou nada à trama, dado que este fato (ser irmãos) não influenciou o que estava por vir. Pelo contrário, uma certa gratuidade no enredo não colabora para a credibilidade. Soa forçado. Eles são irmãos porque este é um filme do Almodóvar, então é preciso excitar o lado épico(e familiar) de todo conflito, a única explicação.O pagante do cinema não vai nem coçar a cabeça: “Irmãos? Então tá”.
Pena que ao tocar em temas mais modernos como experiências de clonagem e queimaduras(de certa forma, um outro tabu), o diretor não consiga explorar em sua plenitude uma fonte abundante de drama e dilemas. Se ele optou por chocar o expectador com uma abordagem mais bizarra, ok, seu álibi é que se baseou no livro Tarântula, de Thierry Jonquét.
Na realidade, a novidade é que, embora não seja explicita, a violência imposta a um dos personagens principais concentra toda a atenção do público em um processo lento e doloroso. Chega a ser estranho que o diretor que fez uma elegia à vida em “Fale com ela” ou “Volver” demonstre agora pouca compaixão com o destino de seus personagens. O filme faz uma referência a “Corpo que cai”, de Alfred Hitchcock, mas tenho minhas dúvidas se o diretor britânico ia gostar da homenagem, porque o mestre do suspense era um homem afeito a sutilezas.
"A pele que habito" é uma realização triste e que serve como termômetro para avaliar o quanto o público está insensível a questões como, por exemplo, a tortura.
Certamente Almodóvar apenas quis se superar mais uma vez, causando polêmica, conquistando espaço na midia. Pena que sua autoavaliação tenha sido tão rasteira, que ele não perceba que sua grandiosidade como realizador está no fato de seus personagens transbordarem vida e liberdade, como em “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Nesta nova obra estrelada por Antonio Banderas, ele optou pelo superficialismo da violência. É certo que prende a atenção, mas também não dá para negar que ele tenha se deixado seduzir pelo caminho mais óbvio do cinema atual, que oferece, tendo em vista nosso mundo competitivo e estressado, um vasto cardápio de atentados à dignidade humana.

Quinta-feira, Novembro 10, 2011

Sobre a morte de Gelson Domingos

Está na hora de a sociedade enxergar que existem exageros na cobertura jornalística. Ninguém do publico vai morrer se não acompanhar ao vivo as imagens de tiroteios em zonas de risco. O papel do profissional da imprensa é informar e isto poderia ser conseguido sem que o profissional fosse submetido a algum tipo de perigo.

Ninguém entra no fogo para cobrir o incêndio, por que, ao acompanhar um caso de conflito, embrenhar-se em uma área que está sendo torpedeada por fuzis e similares?

O cardápio farto de imagens que essas emissoras/empresas jornalísticas oferecem peca pela espetacularização do crime e pela falta de ética ao relativizar os danos que podem ocorrer com os profissionais envolvidos (que, na maioria dos casos, não ganham um salário compatível com isso). Não devemos nos deixar levar pelo ritmo imposto pelos internautas de querer tudo ao vivo e em tempo real e tampouco pela ambição dos empresários que desejam lucrar com a curiosidade mórbida do público.

A morte de Gelson poderia servir, pelo menos, para que nós,da audiência, comecemos a ter uma postura crítica diante das imagens da telinha.

Será que com a internet, a imprensa toda se converterá a um gigantesco reality show sem limites ou ética?

O cinegrafista foi uma vítima, mas os culpados são muitos.

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Segunda-feira, Outubro 31, 2011

O romântico incurável ou saudades do balcão

Noutro dia deparei-me analisando o cenário boteco-cultural lá da praça perto de casa. Um dos bares vende cerveja em garrafa e o do lado, mais luxuoso e concorrido, serve chopp. Lembrei que ali há alguns anos eu podia parar no balcão e pensar na vida, enquanto esquecia do calor ao som de uma tulipa do precioso líquido gelado. Mas isso foi antes de uma grade ser erguida, isolando as mesas e também acabando com o “chopp no balcão”.
Era um boteco e virou um restaurante, ainda que com pinta de pé sujo. Um dia me avisaram que o bar havia sido comprado por um proprietário de uma cadeia de tradicionais botecos. Eu ouvi gente comemorando de modo esfuziante, como se a civilização houvesse chegado. Como se fôssemos selvagens em busca do evangelho. Sim, o lugar foi adquirido, a cerca foi erguida e o balcão não é lugar para bebedores anônimos se encostarem.
Agora deveríamos ter o “pastel-sensação” que é vendido com o mesmo padrão em todas as lojas da grife. Não se tornou verdade, a despeito de o menu ser parecido, o pastel ao ser deglutido sugeriu uma perigosa inconstância. O recheio saltou em minha boca inteiro, deixando a casca vazia como um grande resto sem graça a ser engolido. Azar? Tentei em uns 3 dias diferentes até desistir do petisco. Algo estava errado.
A despeito de ter um novo proprietário, o estabelecimento não se tornou um membro oficial da rede de botecos, permanecendo com a alcunha que havia antes. E ali nunca consegui ser bem atendido. Sentei um dia para ver o futebol e no intervalo do segundo tempo pediram que eu (e mais uma turma nos arredores) nos mudássemos para outras mesas, pois eles iriam transmitir uma luta ao vivo. Claro que os novos lugares “sugeridos” eram em mesas bem mais desconfortáveis...Ora, se não tinham a intenção de transmitir o jogo inteiro, então por que começaram? Parece tão lógico. Mas eu estou errado, sou consumidor, freguês, logo estou errado. O sensato é eles me transferirem para uma mesa no canto. Claro que não topei. Levou mais uns vinte minutos para que o garçom trouxesse a conta e eu paguei com dinheiro trocadinho, caso contrário, ao esperar o troco, ia me atrasar para o segundo tempo.
E vamos dar 3 urras porque temos um boteco com um cardápio igual ao poderoso XXX (preencha o nome - dica, 3 sílabas!).

Sexta-feira, Julho 29, 2011

A filha de Janis


Foi-se Amy Winehouse, legítima representante do pop retrô, de um som delicado, algo jazzy. Acho que Amy Winehouse vai deixar muitas saudades, principalmente porque sua vida estava tão devassada aos olhos do publico que ela já nos “parecia da família”. Ela acabou se tornando um ícone dos tempos da Internet, seus escândalos tinham vida própria e interagiam com os fãs. Ela nem precisava do talento que tinha.
Falar de Amy ou Angelina Jolie ou Britney Spears faz parte de nossa marcante pretensão. Não raro vejo as pessoas se referirem a um artista atual, com tanta autoridade, que assusta. “Ela era apaixonada pelo Blake (ex de Winehouse), mas foi ele que a levou a usar crack, desde então ela....”. Começa assim, citando o que saiu nos jornais e depois acrescentam sua visão(ou analise) particular: “ela era a típica inglesa, que parecia liberal, mas era conservadora ao extremo, inclusive ela era do tipo que...”E tome blá blá blá. Não dá para não questionar: ora, se a gente convive com amigos (ou parentes) e muitas vezes, depois de anos bem intensos, nos surpreendemos ao descobrir que não os conheciamos de verdade; se mesmo uma convivência não é garantia de nada, como é possível que alguém acredite conhecer a Amy só por linhas que saem no jornal?
“Ela bebe e depois se droga, não aceita criticas e começa a ficar alucinada..”, posso ouvir a voz cheio de autoridade de alguém que fala como se tivesse tomado suco de laranja com a cantora durante as manhãs dos últimos sete anos. Da minha parte, sei que ela “enfiava o pé na jaca”, o que não é novidade. O resto das digressões, se ela aceitava criticas ou se era uma típica canceriana ou geminiana ou escorpiana, não faço a menor idéia. Diante de um milhão de matérias “jornalísticas” que saíram sobre ela nos últimos anos e, quase todas falando dos escândalos, me orgulho de dizer que não sei nada sobre Amy Winehouse. Sei apenas o que saiu no jornal, mais especificamente, o que dava para aproveitar. Que ela não conseguiu completar um show no determinado dia. Que ela morreu.
Sua morte foi um choque. Para alguns, pela musica. Para outros (uma legião imensa), porque ela havia se tornado uma espécie de personagem de todos. Ela era um bem comum. Dando vexames, errando a letra, tropeçando, aparecendo doidona por aí. As pessoas se lamentavam, mas, no fundo, ela era uma personagem tão real quanto qualquer um desses participantes de reality show. “Não era para ter morrido, levou a sério demais o personagem”, alguém pensou. Conectar-se a um site e ler sobre o último vexame de Amy tornava menos medíocre a vida de muitos de nós.
Acho que a sociedade é assim: precisa rir de alguém como ela. Que é mulher, tem a aparência diferente e, principalmente, é um artista de talento e bem sucedido. Existem milhões de mulheres parecidas (fisicamente ou pela maneira intensa) com Amy, mas sem o sucesso dela, então são só - preencha aqui com algum adjetivo pejorativo. Mas Amy vendeu musica e ganhou dinheiro, então o desprezo vinha em forma de riso. Às vezes era de escárnio (dos moralistas), às vezes era um riso carinhoso. “Olha, a Amyzinha aprontou mais uma”.
Acho que não sabemos muito sobre Amy, apenas sobre o personagem, temos algumas pistas. Sei que ela não teve tempo de gravar mais cds, o que diminui o tamanho do legado, lançou Franc (em 2003) e Back to black (em 2006) e só. Janis Joplin, que também viveu intensamente, mas de 67 a 70, lançou 4 albuns de estúdio e um ao vivo. A diferença é que na época era interessante(financeiramente) para artistas gravar discos, enquanto que hoje ninguém sabe o que vai acontecer com a industria fonográfica. Sem discos, restaram as excursões e o personagem que não era dela, mas de todos.
Durante uma época achei que as loucuras de Amy eram uma espécie de marketing, pensei que em um futuro, ela fosse se tornar uma velhota, sobrevivente aos anos de abuso, algo como uma versão feminina de Keith Richards. Mas não aconteceu. E agora, quem vai suceder a filha de Janis Winehouse ?

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